Uma Copia Da Entrevista Dada a Revista Metrópole Por Fátima Carneiro de Mendonça.

Fatima Mendonça e o médico Carlos Henrique

Antonio Risério – Não temos,na Bahia, uma tradição forte de primeiras - damas que se interessem por política. Elas sempre gostaram de mandar, mas não de política .

Antonio Risério – Não temos,na Bahia, uma tradição forte de primeiras - damas que se interessem por política. Elas sempre gostaram de mandar, mas não de política . A senhora se interessa pelo assunto ? Desde quando?

Fátima Mendonça – A política, em todos os sentidos, comanda o mundo. Gosto de política. Agora, política de mandato, não. Eu, Maria de Fátima Carneiro de Mendonça, ir pra rua pedir que votem em mim, porque tenho canela seca, cabelo bom ou falo bonito, não. Não quero, ninguém merece isso. Tenho o maior respeito por doutor Mário (Kertész), por Jaques, por todos que se colocam em julgamento público, mas eu não tenho coragem nem de pedir voto.

AR – Temos uma história de amizade pessoal, mas eu nunca lhe chamei por seu apelido, Fatinha. Sempre a chamei de Fátima. Como é que a senhora se sente agora com a Bahia inteira – a elite,principalmente – querendo demonstrar intimidade e lhe chamando de Fatinha?

FM – Pois é, você tá vendo isso o tempo todo, né? Mas não estou me dando com ninguém que eu não me dava, não tô deixando de fora ninguém que eu tinha dentro. Atendo a todos, mas as pessoas estão mal acostumadas. Chegam e dizem: “Fatinha, eu tô com um projeto legal, maravilhoso”. Querem que eu encaminhe o projeto. Por que não vão pelo caminho normal, pelo caminho certo? Por que não entregam pro secretário, dão entrada no Faz Cultura? Por que é que sou eu que vou ter que entregar? Vou botar uma cruzinha no projeto, dizendo que foi Fatinha quem mandou e é pra ser aprovado? Deus é que há de me livrar! (risos).

AR – O mundo político baiano ainda é muito masculino. Tem machismo atrapalhando seu caminho?

FM
– Não, não. Eu boto os homens todos no bolso (risos). Eu não tenho negócio de feminismo e machismo. Gosto de igualdade, sabe? As mulheres até se zangam porque eu nunca fui muito de movimento. Acho que ser feminista é cuidar da vida, pagar suas contas, não depender de ninguém, ter independência, ter liberdade. Aliás, vi uma palestra de Graça Belov. Ela falando de Confúcio, que loucura. Confúcio era uma miséria (risos). Doutor Mário, Confúcio dizia que a mulher devia ser mantida pelo pai; depois, pelo marido; quando ele morresse, pelos filhos, e senão tivesse filhos, pelo Estado. Ela não podia ganhar um tostão pra não viver só, viu? Medo. Tá vendo, Rita? Oh, Rita, se pronuncie.

Rita Batista – Durante a campanha, a senhora disse que o título ou o cargo de primeira-dama a incomodava muito. Já se acostumou?

FM – Médio, tem protocolo e tal, quer dizer, eu não gosto muito dessa coisa, de ter segurança atrás de mim. Entro no meu dentista com segurança, pode? Não pode. Ele olhou assim pra minha cara. Aí eu disse: não, todos pra fora, eu e meu dentista temos uma relação já de anos! E depois, quando isso passar, olha minha cara de tacho, sozinha de novo (risos).

Mário Kertész – É verdade. Você está certa, certíssima, é isso mesmo. Agora, como foi que você conheceu Jaques?

FM – Foi na rua, na boemia. No Extudo. Eu tinha terminado meu casamento e tava assim seis meses. Sabe aquela coisa que você não sai de casa? Ficava naquela coisa e Guiga (Guilherme Sodré, ex-marido) também corria por fora, todo fim-de-semana colava, pra não dar chance. Mas um dia eu me danei e saí com uma amiga minha. Jaques era candidato a deputado federal e tinha o retrato dele no bar, bem ali na minha frente. Eu fiquei olhando e disse: tai, ó, gostei da pessoa.

RB – Então, foi no cartaz?

FM – Foi no cartaz. Depois, pessoalmente, rolou também e tal. E aí foi indo e veio o amor.

MK – E você tem ciúme dele?

FM – Tenho. Mas tenho ficado cada dia melhor, acredita?

MK – Mas ele é muito assediado, porque Jaques é um homem bonito.

FM
– Assediado, como? Mandam bilhete? Mandam recado? Ele não tem tempo e lá em casa ninguém dá folga (risos).

MK – Mas você fica preocupada com isso?

FM – Fico, é lógico. Mas sabe o que eu acho? Já pensou se Jaques chega em casa nove da noite e eu estou de cara feia, dizendo “você errou aqui a licitação e tá horrível a situação da saúde”? Você já imaginou isso? Aí era que ele só ia chegar em casa meia-noite, e olhe lá (risos). Ele chega em casa e eu estou sorridente, feliz, realizada.

AR – Acho que você pode ser uma peça básica de dinamização contemporânea, social e culturalmente, na Bahia. Você e Jaques deviam formar uma dupla do barulho, arrebentando clausuras provincianas.

MK – Mas eu acho que eles já fazem isso. Mais Fátima que o governador, que fica muito preso a algumas funções. Você ter uma primeira-dama que fale desse jeito! Outro dia, eu fui jantar no palácio – e olhe que já estive jantando lá com uns 30 governadores – e foi, rapaz, o melhor de todos. Porque foi descontraído, tranqüilo, a gente brincou.

AR – Nas poucas vezes em que estive no palácio, eu nunca vi primeira-dama.

MK – Não aparecia, não aparecia. Com Antonio Carlos, não aparecia de jeito nenhum. Com Paulo Souto, eu jantei muitas vezes também, e nunca vi a senhora dele.

FM
– Elas ficavam presas, é?

MK – Acho que ficavam no quarto, lá em cima. Agora, esta sua forma de ser. Eu soube que, quando você chega no interior, faz o maior sucesso. Primeiro, ninguém espera a presença da primeira dama. E muito menos uma presença tranqüila e alegre como a sua.

FM – E primeira-dama nunca foi lá, né? Eles dizem: nunca, em 200 anos, uma primeira-dama pisou os pés nessa terra – e as pessoas aplaudem. Eu fico lá, mas depois volto chorando. É muita pobreza, minha Nossa Senhora! Eu saio pensando: como é possível morar nesse buraco? Buraco, buraco, buraco.

AR – E a gente tá se acomodando com esse negócio de política compensatória. Não tem um grande projeto de transformação social.

FM
– E precisa ter. Acho que tem que dar a Bolsa Família, que o povo ta morrendo de fome, e não é só no interior não, aqui também. Brinco assim: você vai em boca livre e ta tudo lotado. A classe média está achatada. Tenho amigas que não estão conseguindo pagar a escola dos meninos. A Bolsa Família ta certo. Para a pessoa levantar da cama pra pescar, tem que estar com a barriga cheia. Mas, depois de um, dois anos, eu ia ter o maior orgulho de dizer: “tudo bem, seu presidente, eu não preciso mais, agora tenho um emprego, já aprendi a fazer um ofício”. Isso é que seria bom. E penso também no meu trabalho de planejamento familiar. Se eu fizer esse trabalho e botar o meu Bahia no lugar certo… (risos).

MK
– Ela tá querendo duas coisas impossíveis (risos).

RB – Acho que o caso do Bahia é mais difícil.

FM – E a “onda tricolor”, não tá gostando, não?

MK – Se ficar essa diretoria aí, não vai a lugar nenhum.

FM – Por que é que não tira? Se tirar, eles vão pra cadeia?

MK – É um bando de descarados mesmo. Aqui, tínhamos uma campanha: “Devolva o meu Bahia”.

FM – Eu sei, eu participei.

MK – Então, agora é: “Soque o meu Bahia”.

FM – Já ouvi também. Eu sou sua ouvinte, meu filho, eu ouço direto. Quando a gente caminha de noite, lá no palácio, eu boto o fone e vou ouvindo.

RB
– A ministra Dilma Rousseff chama à senhora de Evita, em referência a Evita Perón.

FM – Ela acha que eu pareço com Evita, pelas coisas que falo, que vou ajudar e tal. Vou atender todo mundo. Mas, quando uma amiga chique, socialite, diz: “menina, eu to te ligando e cê não atende”, digo logo: “eu só estou atendendo os pobres, você ainda não está precisando”. E aí é por isso. Mas nem conheço muito bem a história de Evita. Li um livro sobre ela, e só.

AR – A senhora é mais bonita que ela.

FM – É… né? Mas aí tem a mistura. Tem a cor, aquela coisa que você escreveu, que um português é chamado de Caramuru e a índia, de Catarina.

MK – E Jaques tá gostando de ser governador?

FM – Acho que tá. É cansativo. Ele não imaginava que ia ser duro como tá sendo. Diz o presidente que a melhor fase é quando se ganha e ainda não tomou posse.

MK – É a lua-de-mel.

FM – Mas ele tem muito orgulho do que conquistou.

MK – Jaques tem uma trajetória bastante interessante. Ele veio pra cá, de certa maneira fugindo do regime militar, foi morar no subúrbio, fez sua própria casa, carioca, judeu e consegue ser governador da Bahia. É uma senhora trajetória.

FM – Por isso que acho que tem alguma coisa que ele veio fazer aqui. Vamos esperar, que o jeitão de Jaques, aquele jeito dele, daquela forma que ele é, não é à toa. Acho que, se é uma liderança que vai despontar cada vez mais eu espero que as pessoas gostem, porque eu gosto. Gosto desse estilo de ser, sem precisar ter medo: respeite-me sem ter medo. Um tem de respeitar o trabalho do outro.

AR – Você falou que Wagner tem uma missão. A senhora é mística?

FM – Eu sou. Bastante. Totalmente.

“Eu digo a Jaques que não pode ficar igual ao presidente, demorando de fazer as mudanças necessárias”

“O Palácio de Ondina é igual à nossa casa. Eu digo: apaguem a luz, meninos. Desliguem a televisão,sacanas. Tem que economizar”

“Existe um protocolo de primeira-dama. E eu não gosto dessa coisa toda atrás de mim. Imagine a minha cara de tacho quando isso passar”

“Existe um protocolo de primeira-dama. E eu não gosto dessa coisa toda atrás de mim. Imagine a minha cara de tacho quando isso passar”

“É preciso perceber que não isso comigo. • tem oposição. É uma revoada, todo mundo querendo vir pro lado de cá. É uma falta de vergonha danada”

“Me dou bem com Beth Wagner. Agora, também é ela lá e eu aqui”


MK
– Jaques é uma pessoa muito tranqüila, muito aberta. E quando ele se irrita, como é? Ele fica brabo mesmo?

FM – Fica. Agora, comigo é pouco. Até adoro uma briga, mas não acho(risos). É difícil brigar com ele. É uma briguinha de vez em quando pra dar uma temperada. Mentira, ele é muito equilibrado. Ele sabe que a gente se adora, se ama. A coisa que mais incomoda ele é alguém pensar que tá passando ele pra trás, com falcatrua. Tentando usar ele pra algum esquema.

AR
– Pelo visto, é mais fácil administrar o palácio que o governador.

FM
– Não, eu não administro o palácio. A gente faz o que pode. Apaguem a luz, meninos! Desliguem a televisão, sacanas! O dinheiro, aqui, é como na casa de vocês: tem de economizar! E temos economizado bastante. O Patrimônio entrou lá, depois de 20 anos, pra fazer todo o inventário. Agora tem plaquinha em tudo. Porque, na hora em que eu passar adiante, podem conferir tudo, pra não dizer que sumiu na minha mão.

RB – Mas o que é mesmo que tira a senhora do sério?

FM
– Injustiça. Não suporto injustiça. E tem me tirado do sério também essa conversinha fiada de achar que vou fazer esquema.

AR – Wagner é bom dono – de - casa? Cozinha?

FM – Cozinhava. Eu nunca vi não. Foi na gestão das outras. Na minha nunca vi não.

MK – Como é a sua rotina hoje? Gosta de dormir até tarde? Dorme tarde?

FM – Quando não tem o que fazer, gosto de dormir cedo. Quando tem, não me incomodo de dormir tarde. Gosto de ficar vendo minha televisãozinha. Agora, tô vendo Blonde, Marylin Monroe. Que loucura a bichinha sofreu. E não gosto de acordar muito cedo.

RB – Mas a Fátima Mendonça, mulher do governador, primeira-dama, não pode nem pensar em fazer algumas coisas que fazia.

FM – Um bocado. Não posso ficar no Boteco do França, cá-cá-cá-cá a noite toda. Não por nada, porque não dá mais tempo. A gente tem muita coisa pra fazer.

MK – Pois é. E aí, dona Fátima, fala pra gente.

FM
– O que vocês estão achando do governo? Muitas críticas? A saúde é dose, né?

RB – A senhora é uma profissional da saúde.

AR – Mário foi prefeito. Na administração dele, aprendi uma coisa: não é só obra e projeto. Tem que ter um discurso simbólico forte, que mexa com a mentalidade e com o imaginário da sociedade. Isso eu acho que tá faltando.

FM – É verdade, é verdade.

MK – E é uma pena que esteja faltando. Porque vocês são as pessoas mais adequadas para ter esse discurso. Na prática, vocês estão mexendo com a sociedade. Tem o vácuo da morte de Antonio Carlos, o maior provocador da política baiana. O sujeito que, através da provocação, fazia com que as pessoas se movimentassem, até para combater ele. Então, a gente corre o risco de ficar uma coisa muito morna, entediosa, aburrida.

FM
– Mas é também, doutor Mário, que não tem uma oposição nisso. É uma revoada, todo mundo querendo agora vir pro lado de cá. É uma falta de vergonha danada.

MK – Eu sei, mas falta um discurso forte, que indique o norte do governo. O governo Jaques Wagner é o quê? Tem que ter um grupo que pense isso, e pense em torno da realidade do que vocês já estão fazendo. Pegue o que vocês estão fazendo e transforme.

AR – Falta uma presença discursiva na sociedade.

FM
– Sim, então me diga aí, pra eu fazer (risos).

MK – Inclusive, do próprio governador. A gente sente falta dele, do discurso dele.

AR – A administração de Mário tinha uma visão antropológica da cidade, projetos urbanísticos, todo um discurso mobilizador, no plano simbólico, no plano do imaginário da sociedade. Obra,só, não adianta.

FM – Não adianta, também acho.

AR – Você tem que ter a sociedade caminhando numa direção.

MK – Tem que ter pessoas que ajudem intelectualmente a construir isso. Não é para dar o norte ao governo. É para pegar o norte do governo e transformar num discurso que seja entendido pela população. O que é o governo Jaques Wagner? Qual é o norte do governo Jaques Wagner? Qual é a prioridade do governo Jaques Wagner? Ninguém sabe!

FM
– Não, não sabe. Agora, isso ele sente bastante. Vocês deviam conversar mais com ele, marcar pra gente conversar. João Santana tem conversado com ele, porque ele próprio está sentindo isso, e isso angustia o cara, rapaz! Agora, acho que vai dar certo. Estou me dedicando exclusivamente a isso. Achei ótimo o que vocês me disseram aqui. E vou dizer a ele. A gente não veio pra brincar não.

MK – Vocês têm mais alguma pergunta?

AR – Essa última parte a gente censura?

FM – Estou entregue a vocês.

MK – Quanto a isso, pode ficar tranqüila.

AR – É claro que a gente vai distorcer algumas coisas.

FM
– Eu sei que vocês jamais fariam

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