
Por Débora Alcântara
Subir seis quilômetros até o topo da Serra do Papuã perpassando toda a riqueza de mata nativa sobrevivente à ação predatória da civilização foi apenas o início de uma jornada educativa diferente para 30 alunos da Escola Municipal Cesar Borges e o grupo de Capoeira do Mestre Zé Bala, do distrito de Itamarati. Eles vieram assistir à quinta edição do Cine Papuã, realizada no último dia 13, quando foi lançado um concurso de redação com temática socioambiental relacionado ao filme.
A película que inaugurou esse desafio, que será permanente nas edições do Cine Papuã, foi Kirikou e os Animais Selvagens, um filme de Michel Ocelot e Bénédicte Galup, que conta a história de um pequeno menino, nascido em uma aldeia da África Ocidental. Mesmo pequenino, o garotinho tem de enfrentar Karabá, uma poderosa e malvada feiticeira que devorou todos os homens que tentaram enfrentá-la e ainda roubou não somente todo o ouro da aldeia de Kirikou, mas também secou o bem mais precioso de seu povo: a fonte de água. Nessa aventura, Kirikou se revela um pequeno titã, um herói negro.
“Entendi como é importante preservar a natureza, porque ela é um bem. A água hoje é mais valiosa que ouro, não podemos desperdiçá-la. Aprendi também que onde moro tem muita fonte de água, então moro num lugar rico, não é?”, indagou a estudante Ramire Souza, de 12 anos, após a exibição e o debate sobre o filme.
Os resultados dessa provocação são considerados um sucesso para a consciência ambiental dos alunos, segundo a diretora da Escola, Belenice Oliveira. “Isso ajuda não somente na área pedagógica, mas também para o melhor comportamento desses estudantes em relação ao meio ambiente, que acabam passando o que aprenderam para a família”, destacou. Ela acrescenta que, apesar de parecer difícil lutar contra a degradação do meio ambiente, filmes como Kirukou ajudam a encorajar e mostrar que é possível. “Se há uma pedra no nosso caminho, temos de aprender a usá-la a nosso favor, em nosso benefício. Temos que ter perseverança”, disse aos alunos.
Já o professor de História, Jocelino Tobias, ressalta do filme a valorização da cultura da África. “As comunidades africanas dão um show de respeito à natureza, e isso é um bom exemplo para o nosso povo e para o mundo. Além disso, assistimos a vários elementos e comportamentos que fazem parte de nosso cotidiano”, disse o professor, que destacou a importância dos mitos da África, que se revelam fortemente na formação do povo brasileiro e principalmente baiano.
Essa relação de respeito do povo africano com a natureza é tão evidente que não é à toa o grau de preservação ambiental acentuado nas áreas povoadas por comunidades remanescentes de quilombo na própria APA do Pratigi.
“Temos de saber sobre nossas origens para termos coerência com o presente e com o futuro. A África é o nosso berço”, acrescenta o professor de Educação Física, Joaquim Bispo.
“Se não existisse essa união entre a nossa escola e essa associação que protege essa parte importante da nossa natureza, não estaríamos aqui, aprendendo tudo isso, não teríamos conhecido como a natureza é tão bonita. Nunca tinha visto um lugar maravilhoso como esse”, revelou a aluna Viviana do Espírito Santo, 14 anos, se referindo aos lugares por que passou na sede da AGIR.
O autor do projeto Cine Papuã, Sérgio Godin, presidente da Associação Serra do Papuã, que executa a ação em parceria com a AGIR, chama atenção de que é importante, cada vez mais, os professores de todas as escolas integrantes da APA do Pratigi abraçarem o projeto como parceiros. “Isso é um merecimento de todos esses estudantes, que serão multiplicadores dos saberes aprendidos aqui. Essa é uma causa de toda a comunidade da APA”, ressaltou.
As sessões são exibidas mensalmente no auditório da AGIR. A idéia é transformar o Cine Papuã num fórum de discussão transdisciplinar, que estimule consciência e atitude ambientais na comunidade escolar, “deslocando” a escola para além da sala de aula. Outras sessões futuras pretendem destacar temas como o aquecimento global, as mudanças climáticas, o aproveitamento dos resíduos sólidos, a conservação dos mananciais aqüíferos, o desenvolvimento sustentável e também as possibilidades de implantação de projetos alternativos para as comunidades da APA do Pratigi.cine papua
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